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ND Games13/10/2026por Bruno Cassol

Fim da mídia física no PlayStation: você é dono do jogo digital que compra?

Fim da mídia física no PlayStation: você é dono do jogo digital que compra?
Fim da mídia física no PlayStation: você é dono do jogo digital que compra?

A Sony encerra a mídia física de novos jogos de PlayStation em 2028. Entenda por que jogo digital é licença e quais direitos o consumidor tem.


Bruno Cassol
13/10/2026 às 7h00

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Fim da mídia física: o que muda para quem joga no PlayStation

Em 1º de julho de 2026, a Sony anunciou pelo PlayStation Blog que vai encerrar a produção de mídia física para todos os novos jogos lançados em consoles PlayStation a partir de janeiro de 2028. Os novos títulos serão vendidos apenas em formato digital, pela PlayStation Store ou por códigos em revendedores.

Jogos lançados antes dessa data não serão afetados, e coleções existentes seguem funcionando. A empresa justificou a decisão com a mudança nos hábitos de consumo.

A reação no Brasil foi rápida. Em 3 de julho, a deputada Erika Hilton protocolou representação na Secretaria Nacional do Consumidor. Em 9 de julho, o Procon-SP se manifestou. Depois, um projeto de lei foi apresentado para alterar o CDC.

Deputada Federal Erika Hilton - Portal da Câmara dos Deputados

Deputada Federal Erika Hilton – Portal da Câmara dos Deputados

A posição do Procon-SP

O Procon-SP foi equilibrado: mudar a forma de venda não é irregular por si só, e a Sony pode migrar para o digital. Mas a transição precisa respeitar o CDC: sem novas restrições depois da compra, com possibilidade de compartilhar acesso e sem perda de funcionalidades para quem já tem versões anteriores.

Como a recomendação não tem força obrigatória, não houve penalidade. A Senacon ainda não informou se abrirá procedimento formal.

Licença ou propriedade? O que diz a lei brasileira

Aqui está o núcleo da controvérsia. O art. 9º da Lei nº 9.609/1998 estabelece que o uso de programa de computador no Brasil é objeto de contrato de licença. E o Marco Legal dos Games (Lei nº 14.852/2024, art. 5º, I) define jogo eletrônico como obra audiovisual interativa desenvolvida como programa de computador.

Em outras palavras: para a lei brasileira, jogo é software, e software se usa por licença.

Arte de God of War: Laufey (Imagem: Divulgação).

Arte de God of War: Laufey (Imagem: Divulgação).

Quem compra um disco adquire a propriedade do suporte físico, que pode ser revendido, emprestado ou doado. Quem compra uma licença digital adquire um direito de acesso condicionado aos termos da plataforma, vinculado à conta e dependente da continuidade da loja.

O consumidor continua protegido

Licença não significa desproteção da mídia física. O CDC garante:

  • informação clara sobre produtos e riscos (art. 6º, III);
  • oferta com informações corretas e ostensivas (art. 31);
  • proibição de publicidade enganosa, inclusive por omissão (art. 37);
  • nulidade de cláusulas que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada (art. 51).
  • O próprio Marco Legal dos Games elege a defesa do consumidor como princípio (art. 6º, V).
mídia física - Stop Killing Games no Parlamento Europeu (Imagem: Divulgação).

Stop Killing Games no Parlamento Europeu (Imagem: Divulgação).

Stop Killing Games e o PL 3.612/2026

O debate tem raiz no caso The Crew, que a Ubisoft desligou em março de 2024, deixando o jogo inutilizável até para quem tinha cópia física. O movimento Stop Killing Games, de Ross Scott, defende que o fornecedor garanta uma rota de saída ao encerrar serviços online.

No Brasil, o PL 3.612/2026, da deputada Jandira Feghali, propõe aviso de 180 dias, suporte mínimo de dois anos e, no desligamento, patch offline, servidores comunitários ou reembolso. O projeto ainda não produz efeitos jurídicos.

Um alerta: circulou a informação de que o Marco Legal dos Games já obrigaria patch offline ou reembolso. Isso é incorreto. A Lei nº 14.852/2024 não trata do tema.

Conclusão: o disco escondia a licença

O fim da mídia física não cria o problema da propriedade digital, apenas o torna visível. Enquanto havia o disco, havia algo que o fornecedor não podia desligar remotamente. Sem o suporte físico, a relação aparece pelo que sempre foi: uma licença.

O debate, portanto, não é reclassificar licença como propriedade, mas definir os deveres de informação, transparência e continuidade de quem vende acesso em vez de coisa.

Stop Killing Games Movement (Imagem: Divulgação).

Stop Killing Games Movement (Imagem: Divulgação).

Perguntas frequentes

  • Meus jogos em mídia física vão parar de funcionar? Não. Segundo a Sony, o fim da mídia física vale só para novos jogos lançados a partir de janeiro de 2028. Jogos anteriores e coleções existentes não são afetados.
  • Sem mídia física, ainda posso revender ou emprestar um jogo? Na prática, não da mesma forma. Com a mídia física você é dono do disco e pode revendê-lo; no digital, você tem uma licença vinculada à conta, regida pelos termos da loja.
  • O fim da mídia física é ilegal? Não, segundo o Procon-SP. Mas a transição precisa respeitar o CDC: informação clara, sem novas restrições após a compra e sem perda de funcionalidades já adquiridas.

Ficou curioso? Acesse a aba de esportes eletrônicos da ND Games e acompanhe mais análises de Direito Gamer.

Referências:

  1. SONY INTERACTIVE ENTERTAINMENT. Produção de mídias físicas será encerrada em janeiro de 2028 para novos jogos lançados em consoles PlayStation.
  2. BRASIL. Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990. Código de Defesa do Consumidor. 
  3. BRASIL. Lei nº 9.609, de 19 de fevereiro de 1998. Lei do Software. 

BRASIL. Lei nº 14.852, de 3 de maio de 2024. Marco Legal dos Games. 

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